Artistas do invisível: o processo social e o profissional de desenvolvimento

Conheci Allan Kaplan, fundador da organização sul-africana Proteus Iniciative, em 2015, em um encontro organizado pela Claudia Taddei num café em São Paulo. Após poucos minutos de conversa, já estava maravilhado com a forma como aquele homem simples, com barbas de gnomo, harmonizava uma presença terna e acolhedora com uma coerência radical.

Não é para menos, Allan é o criador da abordagem da prática social reflexiva, que explora o pensar de Goethe e sua relação com o campo social e propõe um modo de pensar e agir, em processos de desenvolvimento humano e social, baseado em uma integridade ecológica e um coerência radical entre o que de se diz e o que se pratica.

O livro Artistas do Invisível aborda a prática do desenvolvimento organizacional e das mudanças nas pessoas a partir da vasta experiência do autor. A leitura, muito acessível e agradável, oferece uma reflexão profunda, porém leve, de forma crítica, porém propositiva, sem se furtar de indicar exercícios para que os conteúdos abordados possam ser alçados a práticas pessoais e sociais.

“Quando trabalhamos com situações sociais, estamos trabalhando com seres, seres vivos, seres muito poderoso. Em geral, são seres afundados nos detritos do passado, tão debilitados pelos fracassos que colecionaram, fracassos esses causados pela rotina e pelo hábito entorpecente – às vezes tão grandes, desajeitados e obtusos como os gigantes da mitologia -, que perderam toda sua vivacidade, sua agilidade, toda a energia da juventude e a esperança. Quando isso acontece, não importa o seu tamanho, eles se escarrapacham sobre o nosso mundo, tecendo sobre ele o desânimo; ocupam nossas encostas e jogam sobre elas copiosas sombras como as Sliky hackea fazem sobre os fynbos. E há outros seres, nem um pouco burros – muito pelo contrario, ágeis, cheios de viço, vigor e boas intenções -, que podem, apesar disso, persistir na manipulação e no oportunismo, tudo supostamente em nome de um futuro melhor e de uma resposta mais flexível. Esses talvez invadam nossas encostas como bandoleiros, tendo em mente apenas o lucro e o ganho pessoal, com o coração aberto – e sacola para coletar moedas também.

É com esses seres que nos envolvemos quando praticamos a arte do desenvolvimento social. Se nos reconhecermos nos organismos com os quais trabalhamos e nos comprometemos genuinamente com sua recuperação, talvez possamos começar a criar algo novo. O objetivo de tal trabalho cocriativo é a totalidade.”

(…)

“Mistura de ordem e caos, os sistemas vivos florescem à beira do caos quando se permite que a nova ordem venha à tona. Os sistemas vivos se organizam e se recriam a partir do próprio impulso, desde que haja um fluxo contínuo de matéria passando através deles; desde que eles estejam caóticos o suficiente para assegurar que seus limites não estejam fechados a novas informações. “

(…)

“As dinâmicas e os misteriosos movimentos da mudança ‘não podem ser confinados a uma regra’. Mas nós adoramos nossas regras e medidas, nossos padrões de comparação, nossos critérios e padrões de qualidade, os quais, acreditamos, nos dizem o que está ocorrendo e nos libertam das rigorosas exigências da consciência. “

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