Inteligência sociocriativa

No Latim intellectus, de intelligere = inteligir, entender, compreender. Composto de íntus = dentro e lègere = recolher, escolher, ler (cfr. intendere). Wikipedia

Uma ideia, uma noção. Uma hashtag, uma nuvem de aprendizados.

Um método aberto e em construção para ajudar pessoas a empreenderem de forma mais orgânica, criativa e colaborativa.

Um convite a me observar. A percorrer um caminho de autoconhecimento. Aprender a respeito de meu jeito de ser e realizar. Me apreciar criando a mim mesmo e o mundo.

Um dos percursos até aqui

Por André Martinez

Gosto de pensar a “inteligência sociocriativa” como uma tag que organiza aprendizados próprios, aprendizados comuns e repertórios hackeados em um sistema de princípios e padrões metodológicos completo e harmônico. Vejo essa tentativa de síntese como o resíduo de um processo histórico complexo, fruto do acaso da vida e do encontro com pessoas e circunstancias que afetaram meus pensamentos e práticas e foram afetadas por eles.

 

 

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Arriscando um campo de investigação, eu diria que a inteligência sociocriativa compreende:

Padrão da dinergia dos quatro elementos: #sentido, #propósito, #aprendizado e #método;

Padrão do intercontexto, para desenvolvimento e avaliação de projetos e organizações;

Metodologia para articulação de movimentos colaborativos em territórios e setores;

Estudo de repertórios sistêmicos, fenomenológicos e da prática social reflexiva.

Dinâmicas de pesquisa colaborativa em laboratórios e residências.

Por enquanto, o almanaque explora somente a parte dos elementos metodológicos e suas conexões.

Sinto que há um risco em delimitar a ideia, talvez porque seja como tentar capturar e emoldurar uma coisa viva, cheia de mistérios, que cria corpo orgânica e autonomamente e com a qual lido de forma muito pragmática e despretensiosa. Quero cuidar dela como um convite à exploração, à pratica, sem apegos, sem reduzi-la a um conceito “útil”, a uma fórmula ou um modelo.

A noção vem se formando ao longo de pelo menos quatorze anos de trabalho com profissionais, artistas e empreendedores culturais, criativos e sociais em todas as regiões do Brasil. Multiplica anos de prática, centenas de pessoas e projetos que se transformaram a partir das ideias entrelaçadas na tag inteligência sociocriativa.

Sem pretender contar uma história completa, sinto necessidade de compartilhar alguns momentos relevantes deste percurso.

2004 a 2009

Em 2004, eu e Leonardo Brant éramos consultores muito ativos na Brant Associados. Militávamos por uma atitude mais socialmente responsável das empresas em relação ao patrocínio de projetos culturais. Era uma época de entusiasmo para aqueles que, como nós, acreditavam no papel central da cultura para o desenvolvimento social do país. O Ministério da Cultura de Gilberto Gil materializava na política pública uma visão da diversidade cultural em toda sua complexidade e exuberância. No entanto, a prática de usar a renúncia fiscal da Lei Rouanet e outras leis para promover marcas a partir da ótica do marketing cultural, nos parecia oportunista e ineficiente. Nossa resposta para essa inquietação foi a arquitetura cultural: um novo modelo de investimento para expandir o pensamento dos gestores corporativos e gerar práticas de patrocínio mais inteligentes.

A arquitetura cultural via as empresas como comunidades humanas e propunha que as marcas financiassem projetos culturais a partir de significados e valores próprios e com um propósito social claro e expansivo. Também estimulava a criação de dispositivos internos de participação e aprendizagem colaborativa e metodologias de gestão dos patrocínios mais sensíveis. Deixava de lado a prática corrente de patrocinar para promover a marca, e propunha a busca de impacto social efetivo com uma expressão original de valor na maneira de conduzir os patrocínios.

As empresas Avon e Comgás foram dois cases exemplares da arquitetura cultural. O desenvolvimento de suas políticas foi sustentado em um sistema equivalente ao que hoje proponho como elementos sociocriativos, conectando e fazendo convergir discursos, dispositivos e ações.

“Sentido” expressava uma “assinatura” de significado da empresa como comunidade viva, como rede de pessoas que convivem. “Propósito” apontava para as causas e agendas envolvidas, escolhas políticas em diálogo com movimentos e forças existentes na sociedade. “Aprendizado” reconhecia o valor que a organização poderia agregar com suas expertises e ao mesmo tempo o que ela poderia aprender na relação com os projetos. “Método” apontava para metodologias e práticas de gestão e relacionamento  que gerassem harmonia entre as distintas dimensões envolvidas (comunicação, impacto social, convivência, estratégia, compliance etc.).

Após uma pesquisa que ouviu centenas de revendedoras, gerentes e pessoas colaboradoras, a Avon adotou o conceito-sentido “cultura de vida” para expressar um jeito mais feminino e não violento de estar no mundo. Seu propósito era patrocinar para promover os valores da colaboração, coinspiração e coexistência – tão vivos nas atitudes das revendedoras autônomas – como práticas sociais nas comunidades em que elas estivessem presentes. Comgás, por sua vez, passou a organizar seus patrocínios em torno da ideia de “aprendizado transformador”, expressando ao mesmo tempo uma cultura de relações sustentáveis com pessoas e comunidades e o propósito de fomentar projetos socioculturais que contribuíssem para o desenvolvimento social local.

2009 a 2011

Avon e Comgás estavam a pleno vapor com suas metodologias de patrocínio baseadas na arquitetura cultural. As parceiras Minom Pinho e Jasmin Pinho, da Casa Redonda, haviam assumido a gestão do Fundo Avon Viva o Amanhã e do Fundo Comgás de Patrocínio Sociocultural. Eu acompanhava o trabalho delas, cuidando de métodos e processos.

Para tornar os fundos efetivos, era preciso manter um diálogo continuado com centenas de realizadores socioculturais em todo o Brasil, desde a chamada de projetos até a prestação de contas. Nessa prática, notávamos que os potenciais eram enormes, percebíamos como o afeto estava sempre presente gerando energia para processos de transformação sistêmica, ficávamos animados com a riqueza de saberes e sonhos presentes no holograma tocado por nossas metodologias corporativas. Por outro lado, ficava muito patente a necessidade de repertórios e ferramentas de gestão mais adequados aos desafios dos realizadores que habitavam a complexa interseção entre arte, cultura e desenvolvimento social.

Com essa sensibilidade presente, comecei a desenhar um programa extensivo de formação para empreendedores criativos e culturais preocupados com impacto social. Desde o início do trabalho com a Avon, eu estava deslumbrado com a biologia cultural do neurobiólogo Humberto Maturana e queria desenvolver um curso complementando minha experiência com o conhecimento de outros profissionais para trabalhar visão e pensamento sistêmicos e competências relacionais.

Na mesma época, Minom, que sentia a mesma inquietação, me apresentou a ideia de uma plataforma digital que organizasse conhecimento para a sustentabilidade de projetos socioculturais. Poucos meses depois nasciam a plataforma Sociocultural em Rede e o curso semestral Gestão do Empreendimento Cultural e Criativo. Esse último, realizado em parceria com a Escola São Paulo, foi um grande sucesso, premiado pelo Ministério da Cultura e muito bem recebido pelos participantes. Tanto no curso quanto no Guia do Empreendedor Sociocultural, parte integrante da plataforma Sociocultural em Rede, passamos a nos referir à abordagem como um método, o método dinérgico, incorporando os arquétipos dos quatro elementos – organizados a partir da ideia de dinergia – e de sete contextos colaborativos (intercontexto). Com as aulas semanais na capital e oficinas imersivas em cidades do interior do estado de São Paulo fomos nos envolvendo de forma mais profunda com os realizadores socioculturais. Abusamos das metodologias de inteligência coletiva. Descobrimos o quão delicado era explorar os quatro elementos, principalmente sentido e propósito. Percebemos que pensar o empreendimento a partir da nossa proposta metodológica exigia um mergulho interior e que o compartilhamento de visões e experiências era o recurso mais valioso de todos.

2012 a 2016

Esse período é marcado pelo reencontro, após um longo hiato, com a parceira Claudia Taddei. Em 2006, eu havia prestado consultoria para o aprimoramento do método de gestão da empresa dela, a Com Tato, e depois trabalhamos juntos em projetos para a Avon.  Ela e a sócia Veridiana Aleixo me chamaram para uma conversa. Estavam sentindo a necessidade de renovar e reposicionar a empresa. O negócio vinha se diferenciando no mercado pelo cuidado com a efetividade e compliance dos projetos e ela queria aperfeiçoar suas metodologias e posicionar a marca. Estava preocupada em compreender a efetividade de seu trabalho como realizadora, perguntando-se se seria viável desenvolver indicadores de impacto que dessem conta da complexidade do campo da gestão cultural.

Eu vivia em uma atividade intensa, circulando pelo Brasil com o curso “Inovação em Projetos Culturais” e coordenando programas de pesquisa-ação e formação para o Sebrae e para a Fundação Vale. Nesses projetos, o método dinérgico começava ser usado para desencadear e sustentar movimentos colaborativos em arranjos territoriais ou setoriais. Percebia que meu trabalho de formiguinha começava a ganhar alguma escala e estava bastante animado com os feedbacks. Mas havia um desconforto. Sentia-me desorganizado e com receio de entrar em um modo “piloto automático”. Existia uma via de entrega, muito bem sistematizada, com muito fluxo, mas o processo de pesquisa em si carecia de uma estrutura metodológica e econômica que permitisse aprender mais com as pessoas com quem me relacionava.

Rapidamente o que era para ser um consultoria eventual foi se transformando em uma parceria instigante. Criamos o programa Laboratório de Inteligência Sociocriativa, que representava bem o momento de experimentação que estávamos vivendo. Por meio do laboratório, projetos da minha empresa Aprax e da Com Tato passaram a ser tratados como investigação-ação de práticas e metodologias sociocriativas. Sob a marca, desenvolvemos os laboratórios sociocriativos com o Centro de Pesquisa e Formação do SESC em São Paulo e o programa Agir Criativo em parceria com Fundação Vale e com o Instituto Gênesis PUC Rio.

Claudia é uma provocadora entusiasmada, daquelas pessoas que te obrigam a fugir das zonas de conforto e encarar as próprias convicções. Estudiosa das práticas sociais reflexivas, ela é a pessoa que desencadeou a “contaminação” da inteligência sociocriativa pelo pensamento antroposófico. Em 2015, me apresentou para o consultor sul-africano Allan Kaplan e para a comunidade do Instituto Fonte. Desde então, a fenomenologia goetheana e as práticas sociais reflexivas passaram a fazer parte de minha vida e influênciar a aplicação da metodologia sociocriativa.

Outro fato relevante desse período, foi a cocriação do Prêmio Empreendedor Cultural, com a Cida Cultural e a AES Sul (antes de ser adquirida pela CPFL em 2017). Com três edições realizadas, o prêmio capacita empreendedores culturais a partir dos princípios da inteligência sociocriativa e financia os melhores projetos. Há 25 anos empreendendo a Cida Cultural, a produtora gaúcha Cida Herok, é reconhecida pela vocação colaborativa e pelo engajamento na geração de oportunidades para artistas, produtores e públicos principalmente no interior do Rio Grande do Sul. Seu sentido e seu propósito como empreendedora estão muito vivos no prêmio, que na prática é uma potente interface de pesquisa-ação. Com três edições realizadas, durante seis anos, o Prêmio permitiu acompanhar e aprender com a evolução dos realizadores culturais gaúchos que participaram dos cursos, residências e mentorias.

2017

Chego no momento da publicação do almanaque após um processo investigativo afetivo e revelador com o grupo de cocriadores. Amparado pelos preciosos aconselhamentos de Allan Kaplan, da Protheus Iniciative, de Ana Biglione, Flora Lovato e Pilar Cunha, do Instituto Fonte, e colegas do programa Artistas do Invisível, venho imergindo na observação fenomenológica goetheana e nas práticas sociais reflexivas. Parte desse percurso coincidiu com a cocriação do almanaque, influenciando significativamente seus processos e colheitas.

 

 

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