Guia do empreendedor sociocultural

81197a_11d79a862cf447d5b6d57bcdc0b7a0fcEm 2011, Minom Pinho e eu desenvolvemos uma plataforma digital para organizar conhecimento para a sustentabilidade em projetos socioculturais. Produzida pela Casa Redonda, a plataforma Sociocultural em Rede era constituída por um blog especializado, um circuito de workshops e o Guia do Empreendedor Sociocultural.

Utilizando uma linguagem simples e direta, o guia traz informações, reflexões, orientações e metodologia exclusiva concebidos para auxiliar realizadores socioculturais dos mais diversos segmentos – audiovisual, música, artes visuais, artes cênicas, humanidades, patrimônio e artes integradas – na concepção, no desenvolvimento, na execução, na viabilização e no aprimoramento de suas iniciativas e projetos a partir de premissas sustentáveis nos âmbitos social, ambiental, econômico e político.

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Artistas do invisível: o processo social e o profissional de desenvolvimento

Conheci Allan Kaplan, fundador da organização sul-africana Proteus Iniciative, em 2015, em um encontro organizado pela Claudia Taddei num café em São Paulo. Após poucos minutos de conversa, já estava maravilhado com a forma como aquele homem simples, com barbas de gnomo, harmonizava uma presença terna e acolhedora com uma coerência radical.

Não é para menos, Allan é o criador da abordagem da prática social reflexiva, que explora o pensar de Goethe e sua relação com o campo social e propõe um modo de pensar e agir, em processos de desenvolvimento humano e social, baseado em uma integridade ecológica e um coerência radical entre o que de se diz e o que se pratica.

O livro Artistas do Invisível aborda a prática do desenvolvimento organizacional e das mudanças nas pessoas a partir da vasta experiência do autor. A leitura, muito acessível e agradável, oferece uma reflexão profunda, porém leve, de forma crítica, porém propositiva, sem se furtar de indicar exercícios para que os conteúdos abordados possam ser alçados a práticas pessoais e sociais.

“Quando trabalhamos com situações sociais, estamos trabalhando com seres, seres vivos, seres muito poderoso. Em geral, são seres afundados nos detritos do passado, tão debilitados pelos fracassos que colecionaram, fracassos esses causados pela rotina e pelo hábito entorpecente – às vezes tão grandes, desajeitados e obtusos como os gigantes da mitologia -, que perderam toda sua vivacidade, sua agilidade, toda a energia da juventude e a esperança. Quando isso acontece, não importa o seu tamanho, eles se escarrapacham sobre o nosso mundo, tecendo sobre ele o desânimo; ocupam nossas encostas e jogam sobre elas copiosas sombras como as Sliky hackea fazem sobre os fynbos. E há outros seres, nem um pouco burros – muito pelo contrario, ágeis, cheios de viço, vigor e boas intenções -, que podem, apesar disso, persistir na manipulação e no oportunismo, tudo supostamente em nome de um futuro melhor e de uma resposta mais flexível. Esses talvez invadam nossas encostas como bandoleiros, tendo em mente apenas o lucro e o ganho pessoal, com o coração aberto – e sacola para coletar moedas também.

É com esses seres que nos envolvemos quando praticamos a arte do desenvolvimento social. Se nos reconhecermos nos organismos com os quais trabalhamos e nos comprometemos genuinamente com sua recuperação, talvez possamos começar a criar algo novo. O objetivo de tal trabalho cocriativo é a totalidade.”

(…)

“Mistura de ordem e caos, os sistemas vivos florescem à beira do caos quando se permite que a nova ordem venha à tona. Os sistemas vivos se organizam e se recriam a partir do próprio impulso, desde que haja um fluxo contínuo de matéria passando através deles; desde que eles estejam caóticos o suficiente para assegurar que seus limites não estejam fechados a novas informações. “

(…)

“As dinâmicas e os misteriosos movimentos da mudança ‘não podem ser confinados a uma regra’. Mas nós adoramos nossas regras e medidas, nossos padrões de comparação, nossos critérios e padrões de qualidade, os quais, acreditamos, nos dizem o que está ocorrendo e nos libertam das rigorosas exigências da consciência. “

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Amar e brincar

livro-amar-e-brincar-fundamentos-esquecidos-do-humano-maturana-verden-zoller-palas-athena-capaDescobri Maturana em 2006. Na época, prestava consultoria para a Avon na elaboração da sua política de patrocínios e de desenvolvimento cultural de revendedoras autônomas. O desafio era produzir uma abordagem centrada no feminino, mas não orientada a gênero. Meu ponto de partida foi estudar a dimensão filosófica do feminino e tive a feliz ideia de ir conversar com a professora Lya Diskin na Associação Palas Athena.

Durante a conversa ela me apresentou a noção de cultura matrística – uma situação cultural, oposta à matriarcal e patriarcal, na qual “na qual a mulher tem uma presença mística, que implica a coerência sistêmica acolhedora e liberadora do maternal fora do autoritário e do hierárquico” – e me sugeriu a leitura do livro “Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano”. Desde aquele momento minha forma de pensar e minhas práticas foram influenciadas pelas idéias do neurobiólogo chileno, um dos principais pensadores da complexidade.

Escrita por Humberto Maturana em parceria com a psicóloga alemã Gerda Verden-Zöller, a obra aborda três grandes temas: a formação da cultura patriarcal européia, a relação entre mãe e filho e um tipo de democracia vivida a partir da biologia do amar.

Considero uma leitura fundamental e recomendo como o início de jornada para quem deseja estudar a dinâmica dos sistemas vivos e a biologia cultural.

Além disso, o livro também é indicado para para mães e pais engajados na educação dos filhos.

“Colaboração não quer dizer obediência; ela ocorre na realização espontânea de comportamentos coerentes de dois ou mais seres vivos. Nessas circunstâncias, a colaboração é um fenômeno puramente biológico quando não implica um acordo prévio. Quando o faz, é um fenômeno humano. Ela surge de um desejo espontâneo, que leva a uma ação que resulta combinada a partir do prazer. Na colaboração não há divisão de trabalho. A emoção implícita na divisão do trabalho é a obediência. Desse modo, a maior parte da história do humano deve ter transcorrido na colaboração dos sexos, não na divisão do trabalho que hoje vivemos em nossa cultura patriarcal, como separação sexual dos afazeres. Em outras palavras, é a emoção, sob a qual fazemos o que fazemos como homens e mulheres, que torna ou não o afazer uma atividade associada ao gênero masculino ou feminino, segundo a separação valorativa própria de nossa cultura patriarcal, que nega a colaboração.”

(…)

“Assim, em nossa cultura patriarcal falamos de lutar contra a pobreza e o abuso, quando queremos corrigir o que chamamos de injustiças sociais; ou de combater a contaminação,quando falamos de limpar o meio ambiente; ou de enfrentar a agressão da natureza, quando nos encontramos diante de um fenômeno natural que constitui para nós um desastre; enfim, vivemos como se todos os nossos atos requeressem o uso da força, e como se cada ocasião para agir fosse um desafio.”

(…)

“Os conflitos da adolescência não são um aspecto próprio da psicologia do crescimento. Eles surgem na criança que enfrenta uma transição, na qual tem de adotar um modo de vida que nega tudo o que ela aprendeu a desejar na relação materno-infantil das relações matrísticas da infância, que corresponde aos fundamentos de sua biologia. Em outras palavras, a rebeldia da adolescência expressa o nojo, a frustração e o asco da criança que tem de aceitar e tornar seu um modo de vida que vê como mentiroso e hipócrita”

 

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De onde vêm as boas ideias

Capa_DeOndeVemAsBoasIdeias_Final2.inddO autor, pensador e articulista Steven Johnson propõe que as inovações não são acontecimentos eventuais criados por mentes prodigiosas, mas que dependem de ambientes humanos férteis para florescer.

(…) “em geral somos mais bem-sucedidos ao conectar ideias do que ao protegê-las. Como o próprio livre mercado, a defesa da restrição do fluxo de inovação foi durante muito tempo reforçada por apelos à ordem “natural” das coisas. Mas a verdade é que, ao examinarmos a inovação na natureza e na cultura, percebemos que ambientes que constroem muros em torno de boas ideias tendem a ser menos inovadores que ambiente mais abertos. Boas ideias podem não querer ser livres, mas querem se conectar e se fundir, se recombinar. Querem se reinventar transpondo fronteiras conceituais. Querem tanto se completar umas às outras quanto competir.”

Ao longo da leitura são desvendados sete padrões fundamentais dos processos de inovação humanos e naturais: o possível adjacente, redes líquidas, intuição lenta, serendipidade, erro, exaltação e plataformas.

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Lévy e a inteligência coletiva

108949O filósofo e sociólogo Pierre Lévy abre janelas para compreender como somos influenciados pela internet e tecnologias digitais.

Não somente usamos as tecnologias que produzimos, nosso desenvolvimento cognitivo e práticas sociais são afetados por elas. O contato com o pensamento de Lévy, me ajudou a observar e compreender melhor o viver acoplado aos recursos tecnológicos conectivos que no dia a dia acompanham e moldam meu trabalho e pensamento: hipertexto, interconexão digital, mecanismos de busca, editores e simuladores gráficos.

No livro A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço”, o autor convida a pensar o impacto das técnicas sobre a sociedade em uma perspectiva antropológica de longa duração, desde o Espaço da Terra, em que nossa identidade e nossos vínculos eram fundados na relação com o cosmos, passando pelos espaços do Território e da mercadoria, até chegar as possibilidades e complexidades de um Espaço do saber, onde somos intelectuais coletivos.

“A dificuldade do Espaço do saber consiste em organizar o organizador, em objetivar o subjetivante. O saber sobre o saber deriva de uma circularidade essencial, originária, inelutável.”

Outras dicas de leituras para o mesmo autor são “As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática”; “As árvores de conhecimentos”; e “Cibercultura”.

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Transgressões convergentes

8575910566Tive o privilégio de presenciar algumas das conversas instigantes e profundas dos autores, os amigos Maria Benites, Bernard Fictner e Wanderlei Geraldi, durante o período de gestação do livro.

Sim, é uma obra sobre educação, mas no sentido mais amplo e profundo da palavra. Sobre um tipo de aprendizagem que expande e liberta.

Segundo os autores, o livro foi elaborado a partir da preocupação constante de “enxergar o verso das questões para nele tecer, com categorias encontradas nos pensamentos de Bakhtin, Vigotski e Bateson, elementos de respostas que sustentem uma prática de relações educativas.”

“Esperamos, com a reunião destes textos, colaborar com a discussão sobre as questões de desenvolvimento, sobre a centralidade da linguagem nos processos de constituição das subjetividades, sobre a importância de ultrapassar os quadros propostos se fazendo acompanhar pelas manifestações artísticas, sobre a imperiosa relação com a alteridade e sobre as disponibilidades que as novas tecnologias estão aportando e que nos provocam pelas práticas que a partir delas estão em construção.

Este é um livro onde louvamos a Transgressão, onde a transgressão e os transgressores são lidos com verdadeira fruição porque somos convidados por eles a transgredir o cânone, a ignorar o mito, a perguntar o simples e, sobretudo, a nos comover com eles (co-mover, mover-nos com). Achamos que talvez seja essa a primeira e última causa do pensar: provocar transgressões, convergir nas margens, voltar e sair com algo parecido a essa liberdade que todos sabem que existe mas que ninguém consegue definir (de-finir, pôr um fim) e que é mais ou menos como a vida.”

Em um dos capitulos do livro os autores abordam a expressão indígena “O passado está na frente e o futuro está na gente”, que me inspira e acompanha desde o momento que a conheci em conversas com Maria Benites. Costumo citá-la em cursos e oficinas ao tratar da relação dinérgica entre os elementos #aprendizado e #sentido.

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Leonardo da Vinci

Uma de minhas maiores inspirações, Leonardo da Vinci tinha uma curiosidade insaciável e enorme capacidade de se surpreender com o mundo cotidiano. E na observação da natureza, buscava responder as questões que sua fértil imaginação formulava.

Já li muito sobre ele, mas essa biografia recente me chamou a atenção pelo fato de ter sido escrita com base em milhares de páginas de seus impressionantes cadernos. O autor, Walter Isaacson – que já foi biógrafo de Einstein e Steve Jobs – traça uma narrativa que acaba revelando facetas inéditas sobre essa mente tão brilhante.

Apesar de estar ainda no início do livro, posso dizer que já tive vários insights.

O fato de ter nascido bastardo o impediu de ser enviado para uma das “escolas de latim” tradicionais, e com exceção de poucas lições de matemática comercial — conhecida como escola de ábaco — Leornardo foi um autodidata. Ele se orgulhava dessa ausência de educação formal, pois isso o transformou num discípulo da experimentação e da experiência.

Em um de seus cadernos, ele diz:

“Estou perfeitamente ciente de que o fato de não ser um homem das letras pode levar certas pessoas presunçosas a acreditarem ter razão ao me criticar, alegando que sou um homem sem instrução. Tolice! (…)

Elas ficam desfilando por aí cheias de pompa, com o o nariz empinado, adornadas não por obra do próprio trabalho, mas dos outros (…)

Elas dirão que, por não ter sido educado pelos livros, eu não sou capaz de expressar de forma adequada o que desejo descrever — mas não sabem que os objetos das minhas investigações requerem experiência, e não palavras de outras pessoas.”

Ainda tenho mais 455 páginas pela frente. E muito a aprender!

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Manifesto da transdisciplinaridade

Quando deixei a advocacia como forma de expressão profissional, fui em busca da expansão de assuntos, temas e experiências que circulassem fora do âmbito do Direito.

Uma das iniciativas que me marcou bastante foi a Formação Holística de Base da Unipaz. Em um dos módulos entrei em contato com a Transdisciplinaridade e fiquei fascinada.

Nas palavras de Basarab Nicolescu,

a transdisciplinaridade como prefixo ‘trans’ diz indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento.”

Neste livro, o autor transita entre vários temas e num deles, nomeado de ‘O transcultural e o espelho do Outro’, ele diz:

 “A separação entre ciência e cultura gerou o mito da separação entre Ocidente e Oriente: o Ocidente, depositário da ciência enquanto conhecimento da Natureza, e o Oriente, depositário da sabedoria enquanto conhecimento do ser humano. Esta separação, tanto geográfica como espiritual, é artificial, pois, como tão bem observou Henry Corbin, há Oriente no Ocidente e Ocidente no Oriente. Em cada ser humano estão reunidos, potencialmente, o Oriente da sabedoria e o Ocidente da ciência, O Oriente da afetividade e o Ocidente da efetividade.”

(…)

“As diferentes culturas são as diferentes facetas do Humano. O multicultural permite a interpretação de uma cultura por outra cultura; o intercultural, a fecundação de uma cultura por outra cultura; enquanto que o transcultural assegura a tradução de uma cultura para qualquer outra cultura, pela decodificação do sentido que liga as diferentes culturas, embora as ultrapasse.”

Enfim, uma obra fundamental para aqueles que buscam enxergar a teia complexa da vida, onde tudo e todos são interdependentes.

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Reinventar o ofício de aprender

Quando comecei a frequentar o Centro de Educação Transdisciplinar, do qual hoje sou membro, sempre ouvia falar da obra da Hèléne Trocmé-Fabre.

Até que um dia ela veio ao Brasil e tive o privilégio de ouvi-la pessoalmente no lançamento desse livro.

É claro que me encantei, e essa obra vem me acompanhando como uma guardiã da sabedoria.

Não consigo sintetizar seu conteúdo. Vou descrever abaixo alguns trechos que acredito possam inspirar um chamado à leitura.

“Consciente da força de resistência das rotinas, das certezas e das referências seculares, privilegiei os métodos de acompanhamento que levam em conta o que emerge do inesperado, do encontro, do questionamento, da alegria de conhecer e do risco compartilhado dos possíveis.

Consciente também que não se pode encarcerar a vida num modelo e que a única coisa que se transmite é o movimento, escolhi dar enfoque a essas potencialidades que precisam ser descobertas, atualizadas e alimentadas de maneira incessante em cada um de nós.

No imenso continente de nossa vida cognitiva, explorei o que converge para o infinito…”

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