Um almanaque

Dizem que a palavra árabe al-manakh refere-se ao lugar onde os nômades se reuniam para rezar e contar as experiências de viagens ou notícias de terras distantes.

Este é o sentido que mais se aproxima de nosso almanaque. Um lugar onde nômades da vida se encontram, olham para seu caminhar e compartilham percepções. Um espaço que chama à cocriação de uma nuvem de aprendizados inspiradores.

Idealizado com a intenção de compartilhar a metodologia da inteligência sociocriativa, o almanaque convida para um jeito de (auto)empreender mais delicado e humano, mais sustentado nas habilidades para escutar e observar, mais atento aos princípios de organização dos projetos e com mais sensibilidade para os processos vivos cocriativos.

Em 2016, uma campanha de crowdfunding liderada por mim, André Martinez, e pela Claudia Taddei, transformou a ideia inicial em um processo continuado de pesquisa participativa.

Começamos criando um grupo para dialogar sobre a noção da inteligência sociocriativa. Quatorze pessoas amigas, interessadas em temas conexos, abertas a transformações pessoais e preocupadas em gerar um mundo melhor a partir de suas intenções, conhecimentos e práticas.

Em encontros semanais, de julho a setembro de 2016, exploramos e enriquecemos ideias e conceitos originais a partir das práticas de cada participante e criamos uma compreensão compartilhada e aberta.

O movimento seguinte foi formar um grupo reduzido para empreender um percurso de pesquisa mais profundo que levasse à elaboração propriamente dos conteúdos a publicar. Para compor esse grupo, convidei as cinco pessoas participantes que me pareceram mais envolvidas com o projeto e dispostas a uma viagem mais longa. Nesse momento, também convidei a artista plástica Zenilda Cardozo para criar as ilustrações. Posteriormente, duas pessoas egressas das minhas mentorias colaborativas vieram agregar ainda mais vida aos estudos.

Foram nove meses de uma caminhada intensa e reveladora. Éramos nove pessoas inquietas, dispostas a se observar mutuamente e de forma compartilhada, cada uma articulando o estudo dos conceitos com a elaboração de uma narrativa para seu jeito original de inventar o mundo. Iniciamos aprendendo a cuidar da qualidade de nossas práticas de diálogo e observação, com exercícios que também ajudaram no fortalecimento de nossos vínculos enquanto grupo.

No transcorrer da jornada, toda tentativa de chegar a conceitos e fundamentos metodológicos parecia uma redução que não expressava a complexidade do que queríamos compartilhar. Ao mesmo tempo, percebíamos o quanto, na pesquisa, o processo em sí era cheio de vida e transformador para quem participava. A cada novo encontro, nos encantavam as descobertas a respeito de nossa própria relação com os elementos metodológicos da inteligência sociocriativa. O almanaque ia sendo escrito nas histórias de vida de cada um de nós, afetados pela experiência da pesquisa. A intenção inicial de produzir uma coleção de verbetes e textos para compor uma espécie de ambiente wiki, foi se mostrando para nós dura e inerte. Compreendemos que falar a partir da sensibilidade de cada pessoa seria bem mais tocante e intenso do que falar sobre algo “objetivo”. Mostrar nossas próprias ideias e práticas, seria mais rico que explicar conceitos fechados. Aproximações seriam mais efetivas que definições. Nesse momento, o almanaque se revelou cheio de delicadeza e poesia. Um verdadeiro maravilhamento. O conteúdo surgiu como uma síntese despretensiosa e aberta de um todo que se apresenta como uma metáfora, uma noção na qual se enredam conceitos e vida real.

Américo, Karina, Leandro e Pedro escolheram gravar videodepoimentos sobre como vivenciam a inteligência sociocriativa e mostrar um pouco de seu trabalho. Victor preferiu escrever a respeito de seus processos de composição musical. Zenilda elaborou objetos plásticos em técnica mista que serviram de matriz para as ilustrações. Denise trouxe dicas de referências externas que enriquecem a leitura e convidam a novas descobertas. Aline foi em busca da realização de seu sentido e de seu propósito em outro país e de lá mandou gravações cheias de significado sobre seu processo de mudança de carreira. Além de atuar como facilitador, eu desenhei a metodologia de pesquisa de padrões com o grupo e redigi os textos que apresentam as “desfinições” sociocriativas e interconectam os diversos conteúdos.

Tudo isso se mistura nessa interface que chamamos de hiperlivro, porque permite navegar livremente pelos hipertextos e hiperligações, criando conexões orgânicas entre os conteúdos multimida. É um trabalho experimental, construído com muito afeto e financiamento colaborativo, sem pretensão maior que compartilhar nossos olhares, provocar algumas boas reflexões e conectar gente com brilho nos olhos.

Nossa nuvem está no ar, entretecendo ideias e também nossas vidas, em movimento, aberta à tua leitura e participação.

Te convidamos a encontrar com a gente no al-manakh. Traz teu olhar curioso e um pouco de tuas histórias

André Martinez

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Inteligência sociocriativa

Um comentário sobre “Um almanaque

  1. E esse cubo aê? A matriz sociocriativa aprisionada num pen driver. André, sou seu fã desde os Empreendedores Criativos (2012). Agora, obrigado por ter me apresentado a essa artista plástica (acho que Zenilda). Vou descobrindo um por um dos seus amigos inquietos.

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