Pedro de Freitas

Nasci da mistura improvável entre uma cabeleireira, crente e rebelde, vinda do triângulo mineiro e um advogado, bigodudo, tipo porra loca, paulistano do Tucuruvi. Minhas primeiras referências artísticas vieram da minha mãe, que cantava para o sol, e das minhas avós, que diziam que todo o homem precisa saber dançar. Na lida da vida me despedi da infância no embate com uma segunda mãe, que me fez entender que o amor é feito também de sabores amargos. Me fiz homem na confiança de um pai que me deu corda para que eu fizesse as escolhas para trilhar meu próprio caminho com a compreensão da importância do equilíbrio entre liberdade e responsabilidade.

Eu fui uma criança daquelas que tem os dentes da frente separados, danadas de cara. Eu era desses que cantam todo o tempo, falam pelos cotovelos, entram na casa dos outros e começam a explorar portas, armários, geladeira e acabam por cometer proezas improváveis como incendiar área de serviço, cair no mata-burro e até tomar um choque no lábio inferior enquanto tentava desconectar uma tomada com a boca. Nada me parava, lembro do meu corpo inquieto, pulsando num fluxo de desejo e curiosidade. Ouvi algumas vezes eu era tantan e confesso que achei que era.

Na adolescência encontrei um lugar onde a percebi que o que me fazia estranho era também o que me fazia especial e singular. Esse processo de autoconhecimento se deu no Teatro; na Menina-Bola da Jú Jardim, nas viradas de noite montando luzes no Rio Branco, fazendo Bailei na Curva com Dan e Duco, pintando o cenário do Capitão Fracassa, ensaiando o menino bobo do Aurora da Minha Vida… Nessas experiências me enxerguei tridimensional, luminoso, radiante e pude então encontrar e encarar minha loucura, aprendi a lidar com meu ímpeto selvagem de existência e dominar e dosar a força da minha ansiedade e da curiosidade.

Era então no Teatro que seguiria minha vida. Em qual de suas áreas ainda não sabia ao certo e assim, metido que sou, passei por todas. Aprendi de tudo um pouco até que cheguei na Unicamp onde fiz o curso de Artes Cênicas focado em Interpretação e decifrei que meu prazer estava em fazer a coisa acontecer juntando pontas, traduzindo mundos, conhecendo gente, fazendo gente se encontrar, criando mapas, encontrando saídas e assumindo problemas como desafios sempre solucionáveis.  Meu lugar era a produção teatral.

Vivenciando um coletivo de jovens atores, com o estímulo e a confiança de muita gente fui acumulando competências que só a prática podia me dar. Foi no trabalho com o Lume Teatro que ampliei meu senso de generosidade e adquiri os importantes princípios éticos da vida profissional. Seus sete atores me ensinara a olhar um mundo que eu buscava, um mundão imenso e encantador que me seduziu e, por fim, me fez partir de Barão Geraldo – Campinas, para adentrar suas águas e para desbravá-lo. Nesta  furor nasceu a Périplo Produções, para saciar essa fome de conhecer novos mares, novos sabores, fazer parte a partir de uma rede de afetos que me fazem estar em todo mundo ao mesmo tempo que sinto todo o mundo em mim. Nessas andanças visitei muitos países e entre 2015 e 2016 vivi em Paris para fazer um mestrado profissional em gestão de instituições culturais na Université Paris-Dauphine.

Hoje, vendo  a vida através dos olhos dos meus filhos encontro pedaços do meu pai, de meus avós e através desses traços ancestrais faço conjecturas sobre a vida eterna como um rastro genético ou uma coletânea de testemunhos de existência, ensinamentos e aprendizados que são passados de uns para os outros.

Eu ainda canto sem parar, falo pelos cotovelos e apesar de nunca mais ter colocado uma tomada na boca ainda tomo choques mexendo pelos fios da casa. Meus dentes da frente não são mais separados, mas sou ainda aquele menino danado, curioso e meio tantan. Que bom!

 

 

 

Périplo Produções

A Périplo Produções é uma empresa cultural focada em iniciativas de cooperação e intercâmbio entre artistas brasileiros e estrangeiros. Atua na organização de turnês, planejamento de estratégias, elaboração e gestão de projetos em artes cênicas.

A palavra périplo é associada às viagens de exploração dos mares relatadas na história e em grandes clássicos da literatura universal, como a Odisseia. Partir para um périplo é se lançar numa aventura, num percurso desconhecido e repleto de surpresas. Os tripulantes da viagem, ainda que voltem para o ponto do qual partiram, jamais serão os mesmos, pois trazem tatuado em suas almas e corpos a maraca da experiência.

A Périplo surgiu em maio de 2009 com o desejo de criar espaços de encontros que permitam a transformação de seus participantes através de experiências singulares. Nesse intuito executa projetos em parceria com instituições públicas e privadas, importantes artistas do teatro nacional e internacional. Dentre as realizações da produtora destacam-se as longas parcerias como bailarino butô Tadashi Endo (Japão/Alemanha), a palhaça Gardi Hutter (Suíça), as colaborações com Companhia Timbre4 (Argentina) e a montagem do espetáculo Celebração da Realidade com Isis Madi e Bruno Garcia, baseado em contos de Eduardo Galeano.

Em 2012 iniciou a ocupação de uma antiga casa na Vila Mariana. Um estaleiro de ideias e intenções, um espaço de trabalho colaborativo em constante transformação que acolhe empreendedores culturais, artistas residentes bem como pequenos ensaios e apresentações

Visitar site da Périplo Produções

 

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