Zenilda Cardozo

Durante a infância, rodeada de fios, tramas, tecidos e práticas domésticas como o crochê, minha relação com as bonecas era bastante diferente do que se poderia esperar de uma menina do interior do Rio Grande do Sul. Tudo era possível para dar vida aos estranhos desfiles com minhas coleções de figurinos de papel: cortar cabelos, mudar a pintura de bocas e olhos, quando não arrancava as cabeças e fazia tecidos com o próprio corpo das bonecas. Também gostava de inventar criaturas incomuns, como a Felizbertina. Com o passar do anos, aquela criança se transformou numa mulher que questiona o chamado universo feminino, os conceitos e as relações de poder envolvidas na constituição de nossas subjetividades enquanto mulheres. Contemplando a menina, hoje compreendo como as bonecas eram transfiguradas em suporte para minhas invenções, fugindo de sua função formadora e imperativa de maternidade e cuidado.

Gosto de pensar sobre o ato de tecer como uma aranha que constrói sua teia e, assim, o seu destino, como a tecedura que dá forma e trabalha o tempo de vida, construindo e desconstruindo o cotidiano para reinventar-se. A reconstrução do universo feminino e de seus conceitos se manifesta em minha arte por meio da figura feminina e de sua sexualidade, passando a centralizar sua formação enquanto sujeito-mulher no corpo e nas suas relações com o mundo.

Minha vida como artista é estar em meio a fios, tramas, pensamentos e palavras. Uma miscelânea de materiais e objetos de toda ordem, objetos artísticos, teses, livros – imersa em tramas e palavras.

Tramas e palavras são transformadas em arte, feitas em fio de cobre. Palavras passadas adiante, palavras que encontram o seu lugar no mundo e lá permanecem ou que, simplesmente, se perdem no vazio. Fios de cobre, fios de vida, figuras cheias de histórias, figuras em trama, em texto.

A criação acontece a qualquer momento. Mas criar é um caminho sem volta. É perigoso e dolorido. Arte e dor caminham lado a lado e traçam uma linha tênue entre o criativo e a loucura. Como diria Nietzsche, para que a criação aconteça necessitamos da embriaguez, é preciso deixar-se contaminar com tudo o que nos rodeia. É nesse caminho onde aprendo e sou capaz de criar um repertório que me define como sujeito. É nesse processo que minha mente se forma e que o mundo é traduzido para mim. Minha mente está sempre se construindo… em devir.

 

 

 

Entre artes e ciências

Sou natural de Tupanciretã (RS) e vivo em Gold Coast, Austrália. Trabalho na intersecção entre as artes e as ciências, com ênfase na problematização dos discursos sobre o corpo na contemporaneidade. Tenho participado de exposições coletivas e individuais no Brasil e exterior, destacando as coletivas “Astúcias do Corpo”, em Florianópolis, SC e “[entre] Corpos”, Novo Hamburgo, RS, Brasil, em 2016 e “Concepciones de Tiempos Alterados”, em Buenos Aires, Argentina, em 2015. Participo dos coletivos de artistas visuais intitulados “Entrelínguas” e “Arquipélago-CasaAtelier-Espaço de Arte”, ambos com sede em Pelotas, RS. Grupos com os quais desenvolvo projetos internacionais, que visam a integração e problematização das artes com artistas de diferentes nacionalidades e perspectivas. Participei das edições em Pelotas, RS, Brasil 2009 e 2015; e em Pachuca, México, 2011. Destaco como minhas principais mostras individuais as exposições “Por um Fio”, Pelotas, RS, 2013 e “Doações do Corpo”, Porto Alegre, RS, Brasil. 2009.

Na série “Por um fio”, apresento uma reflexão sobre o estudo das relações entre linha e espaço, em que o desenho atinge uma tridimensionalidade – própria da escultura – e sugere um borramento das fronteiras entre as diferentes modalidades artísticas. As obras foram construídas a partir do estudo e da compreensão da figura como um todo, através da técnica do desenho cego e da utilização de um único traço, neste caso – um único fio de cobre.

A exposição “Doações do Corpo” faz parte do programa “Doações do Corpo – interface entre o sistema de transplantes de órgãos e tecidos e o circuito de artes”. Trata-se da realização de ações políticas que convidam o público à reflexão sobre a problemática do corpo na atualidade. As obras são construídas como uma metáfora de corpo com a apresentação dos meus próprios órgãos e tecidos para a doação. Os trabalhos são doados ao público selecionado através de um edital, mimetizando os procedimentos adotados pelo circuito das artes na seleção de artistas para exposições em espaços institucionais e pelo sistema de saúde na organização das filas de espera e escolha dos receptores para as cirurgias de transplantes de órgãos e tecidos. Os selecionados entregam uma foto 3×4 para a substituição dos órgãos/obras doados. As fotos são utilizadas na construção de um autorretrato, que é apresentado como a reconfiguração do corpo da artista – despedaçado e doado – formando assim, outra obra, diferente em linguagem plástica e carga simbólica.

Na ação artística “Reverberações do Corpo”, parto da pergunta “Quais seriam os elementos, materiais e questionamentos envolvidos na elaboração do próprio cérebro sob a forma de um objeto artístico?” e de uma série de problematizações anunciadas no trabalho anterior sobre doação para criar uma obra artística para ser apresentada como meu próprio “Cérebro”. A ação problematiza a centralidade dos discursos sobre o cérebro na contemporaneidade, com destaque à fragmentação e apresentação do corpo como metáfora, criando uma intersecção entre a arte e a ciência. O trabalho destaca a construção social do cérebro – o cérebro em devir – constituído, permanentemente, no encontro de diferentes perspectivas, em que as relações consigo e com o outro têm papel fundamental. O conjunto das reflexões criadas nesse encontro produz uma reverberação na intersecção entre a arte e a ciência.

Tenho doutorado em Educação em Ciências, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul/PPGQVS e mestrado pelo mesmo programa. Sou graduada em Biologia pela Universidade de Cruz Alta e em Desenho e Plástica pela Universidade Federal de Santa Maria.

É na esfera das nossas relações com o mundo e, especialmente, com o outro que a mente se desenvolve. As imagens do almanaque foram criadas usando tramas em desenho, pintura, fio de cobre e tecido. Partindo da constituição de nossa materialidade e de pontos interligados, as imagens saem do suporte e ganham tridimensionalidade.

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