Entrar no Almanaque Sociocriativo, é como entrar no país das maravilhas e se deixar ser Alice de um saber profundo e artisticamente delicado. Por entre tocas e cliques, e videos e textos, fui sendo banhada por inspiração, beleza e conhecimento, e convidada a ir além dos meus próprios entendimentos, engrandecendo a partir dessa interação. É um espaço de deleite consistente e de saber leve, para o aprendizado criativo e para a alma. Em tempos atuais, algo assim é tanto raro, quanto essencial.

Almanaquemo-nos!

Ana Biglione

 

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Um almanaque

Dizem que a palavra árabe al-manakh refere-se ao lugar onde os nômades se reuniam para rezar e contar as experiências de viagens ou notícias de terras distantes.

Este é o sentido que mais se aproxima de nosso almanaque. Um lugar onde nômades da vida se encontram, olham para seu caminhar e compartilham percepções. Um espaço que chama à cocriação de uma nuvem de aprendizados inspiradores.

Idealizado com a intenção de compartilhar a metodologia da inteligência sociocriativa, o almanaque convida para um jeito de (auto)empreender mais delicado e humano, mais sustentado nas habilidades para escutar e observar, mais atento aos princípios de organização dos projetos e com mais sensibilidade para os processos vivos cocriativos.

Em 2016, uma campanha de crowdfunding liderada por mim, André Martinez, e pela Claudia Taddei, transformou a ideia inicial em um processo continuado de pesquisa participativa.

Começamos criando um grupo para dialogar sobre a noção da inteligência sociocriativa. Quatorze pessoas amigas, interessadas em temas conexos, abertas a transformações pessoais e preocupadas em gerar um mundo melhor a partir de suas intenções, conhecimentos e práticas.

Em encontros semanais, de julho a setembro de 2016, exploramos e enriquecemos ideias e conceitos originais a partir das práticas de cada participante e criamos uma compreensão compartilhada e aberta.

O movimento seguinte foi formar um grupo reduzido para empreender um percurso de pesquisa mais profundo que levasse à elaboração propriamente dos conteúdos a publicar. Para compor esse grupo, convidei as cinco pessoas participantes que me pareceram mais envolvidas com o projeto e dispostas a uma viagem mais longa. Nesse momento, também convidei a artista plástica Zenilda Cardozo para criar as ilustrações. Posteriormente, duas pessoas egressas das minhas mentorias colaborativas vieram agregar ainda mais vida aos estudos.

Foram nove meses de uma caminhada intensa e reveladora. Éramos nove pessoas inquietas, dispostas a se observar mutuamente e de forma compartilhada, cada uma articulando o estudo dos conceitos com a elaboração de uma narrativa para seu jeito original de inventar o mundo. Iniciamos aprendendo a cuidar da qualidade de nossas práticas de diálogo e observação, com exercícios que também ajudaram no fortalecimento de nossos vínculos enquanto grupo.

No transcorrer da jornada, toda tentativa de chegar a conceitos e fundamentos metodológicos parecia uma redução que não expressava a complexidade do que queríamos compartilhar. Ao mesmo tempo, percebíamos o quanto, na pesquisa, o processo em sí era cheio de vida e transformador para quem participava. A cada novo encontro, nos encantavam as descobertas a respeito de nossa própria relação com os elementos metodológicos da inteligência sociocriativa. O almanaque ia sendo escrito nas histórias de vida de cada um de nós, afetados pela experiência da pesquisa. A intenção inicial de produzir uma coleção de verbetes e textos para compor uma espécie de ambiente wiki, foi se mostrando para nós dura e inerte. Compreendemos que falar a partir da sensibilidade de cada pessoa seria bem mais tocante e intenso do que falar sobre algo “objetivo”. Mostrar nossas próprias ideias e práticas, seria mais rico que explicar conceitos fechados. Aproximações seriam mais efetivas que definições. Nesse momento, o almanaque se revelou cheio de delicadeza e poesia. Um verdadeiro maravilhamento. O conteúdo surgiu como uma síntese despretensiosa e aberta de um todo que se apresenta como uma metáfora, uma noção na qual se enredam conceitos e vida real.

Américo, Karina, Leandro e Pedro escolheram gravar videodepoimentos sobre como vivenciam a inteligência sociocriativa e mostrar um pouco de seu trabalho. Victor preferiu escrever a respeito de seus processos de composição musical. Zenilda elaborou objetos plásticos em técnica mista que serviram de matriz para as ilustrações. Denise trouxe dicas de referências externas que enriquecem a leitura e convidam a novas descobertas. Aline foi em busca da realização de seu sentido e de seu propósito em outro país e de lá mandou gravações cheias de significado sobre seu processo de mudança de carreira. Além de atuar como facilitador, eu desenhei a metodologia de pesquisa de padrões com o grupo e redigi os textos que apresentam as “desfinições” sociocriativas e interconectam os diversos conteúdos.

Tudo isso se mistura nessa interface que chamamos de hiperlivro, porque permite navegar livremente pelos hipertextos e hiperligações, criando conexões orgânicas entre os conteúdos multimida. É um trabalho experimental, construído com muito afeto e financiamento colaborativo, sem pretensão maior que compartilhar nossos olhares, provocar algumas boas reflexões e conectar gente com brilho nos olhos.

Nossa nuvem está no ar, entretecendo ideias e também nossas vidas, em movimento, aberta à tua leitura e participação.

Te convidamos a encontrar com a gente no al-manakh. Traz teu olhar curioso e um pouco de tuas histórias

André Martinez

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Inteligência sociocriativa

Como ler?

Navegar pelos hiperlinks, criar percursos próprios, buscar palavras mágicas, descobrir conexões, explorar. Talvez seguir as setas. Ou simplesmente rolar para cima…

Pensar divergente, abraçar o todo. Tudo é aberto, tudo é aproximação, noção, impressão, expressão, relação, nuvem, metáfora. “Desfinição” que não “de-fine”, que não põe fim, não impõe limite…

Relaxar, contemplar, apreciar, associar, filtrar, parar para refletir, respirar, revisitar, parar para ouvir, sentir.

Criar a própria leitura. Evitar: deduzir, concluir, reduzir. Nada é regra, nada é correto ou incorreto.

Tudo é o olhar de alguém em diálogo com o olhar de quem lê ou escuta.

Falamos em primeira pessoa para que possas sentir mais delicadamente as ressonâncias entre a voz de cada um de nós e a tua voz interior.

As fotografias que ilustram o almanaque capturam objetos de Zenilda Cardozo elaborados em técnica mista. As matrizes foram criadas usando tramas em desenho, pintura, fio de cobre e tecido. Partindo da constituição de nossa materialidade e de pontos interligados, as imagens saem do suporte e ganham tridimensionalidade.

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Elementos sociocriativos

 

 

Os #elementos da metodologia sociocriativa me convidam a uma sensibilidade, um jeito de me apreciar vivendo e criando.

Observando através de suas lentes, busco entender um pouco melhor como meu modo de perceber, emocionar, pensar e agir interfere na forma como empreendo e aprendo. Minha complexidade é enorme e talvez não encontre respostas, mas com a simples ação de tentar abro espaço para processos autônomos que tanto me ajudam a iluminar e aceitar minha natureza, quanto levam a metamorfoses profundas.

Ando por caminhos que passam pela reflexão. Quero compreender meu jeito de ser, criar e fazer. Busco dispositivos e oportunidades que me permitam observar além do que acho que já sei a meu respeito. Contemplo meu caminho através de sequências com memórias significativas da minha vida. Olho também para os sonhos e ideais que me chamam para o futuro. Tento enxergar o que há “por entre” e distinguir os padrões que surgem através do tempo. Aprecio minhas nuvens: escolhas, práticas, saberes, criações, realizações, frustrações… Que todo é esse? O que diz de mim?

Olhares de pessoas amigas me ajudam a ver além de minhas convicções, de meus conceitos prontos, mortos.

Em meu percurso, vou transformando minhas descobertas em imagens e narrativas. Minha inspiração, minha intenção, meu conhecer, meus meios e práticas. Desenho, modelo uma espécie de argila conceitual. Um manifesto?

Que alegria quando chego a uma ideia que faz sentido para mim! Ela me posiciona e diferencia em uma rede de potenciais relações colaborativas, e abre um campo de possibilidades para conexões e fluxos. Bricolar essa noção de mim mesmo influencia naturalmente as minhas práticas.

Mas, ao mesmo tempo, quando compartilho meu manifesto com o mundo, vem sempre a sensação de que algo ficou de fora, de que as palavras reduziram e imobilizaram algo que é muito mais rico, vivo. Volto para meus percursos reflexivos e tudo recomeça, numa linda e infinita recursividade.

Os #elementos estão em movimento, em transformação constante, como eu, você e o mundo. São sequenciais e são simultâneos também.

Quando nos lançamos a explorar juntos os #elementos de cada pessoa do nosso grupo, vamos nos reconhecendo, enredando, nos criando como comunidade, tecendo laços, criando vínculos, facilitando a colaboração.

Os #elementos não são partes ou unidades. Não são pedaços de um todo. São, sim, dimensões, aproximações, interdependências, expressões que contém esse todo em si e que somente podem ser compreendidas em relação.

Observando-os, me parecem opostos entre si, opostos criadores, dinergias.

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A beleza dos opostos

A beleza dos opostos está em ver o todo em cada parte e tudo em relação.

Está em alargar minha consciência, minhas luzes e sombras. O que vejo? O que não estou enxergando?

Está em compreender minhas polaridades. Interligar feminino e masculino, imaginação e raciocínio, emoção e razão…

Está em observar os infinitos. Meu universo interior e o mundo ao redor.

Em observar-me no tempo e o tempo em mim.

De minha história biológica e cultural –  ancestralidade e experiência de vida – herdei o olhar com o qual enxergo o que acredito estar por acontecer. Mas minha originalidade pulsa, abraçando o acaso, traindo a tradição e as predestinaçôes para criar um futuro imponderável. Como ensina a sabedoria matrística: “o passado está na frente e o futuro está na gente.” .

Os opostos não se anulam, os opostos criam.

No livro O Poder dos Limites, o arquiteto György Doczi cunha um conceito para exemplificar a distribuição energética presente nas harmonias naturais e estudadas pelos artistas, filósofos e cientistas, do passado e da atualidade. Pensada a partir da Proporção Áurea, dinergia é um vocábulo que expressa a energia criadora pela ordem harmônica.

Muitos termos se referem a aspectos do processo de formação de padrões pela união dos opostos, mas nenhum deles exprime seu poder gerador. Polaridade refere-se a opostos, mas não há indicação de que algo novo esteja nascendo. Dualidade e dicotomia indicam divisão mas não significam junção. Sinergia indica junção e cooperação, mas não engloba a ideia de opostos. Desde que não existe uma palavra adequada para esse processo universal de criação de padrões, um novo vocábulo, dinergia, é proposto. Dinergia é um termo formado por duas palavras gregas: dia – através, por entre, oposto – e energia.

O processo dinérgico de formação de padrões é onipresente na natureza. Unindo opostos na energia criativa dos organismos, a dinergia se expressa na relação em que o retângulo áureo é formado por duas partes desiguais, uma menor e uma maior, unidas em uma proporção harmônica.

Na Proporção Áurea há dinergia entre a parte menor (A) e a parte maior (B). Ou entre a parte e o todo.

 

 

Gosto de pensar em dinergia como a sinergia dos opostos.

Estudando meus #elementos, que são opostos e formadores de padrões, posso pensar suas dinergias e tentar enxergar e inventar meu jeito criativo de estar no mundo.

#Sentido, meu fogo interior, chama que aquece, queima e transforma. Combustão, afeto, tesão, sensibilidade para o que me inspira, liga, anima. Energia que me permite criar: algo novo, a mim mesmo, o mundo, o futuro.

#Propósito, ar, ver a ser, sonho, sopros imagéticos, aspirações, visões, utopia, a mudança que eu desejo ver em mim e no mundo, minha busca, minha intenção em movimento.

#Aprendizado, água, saber, adaptação, cura, fluência, interconexão, conhecimento. História de vida e ancestralidade que me permitem ver e compreender.

#Método, terra, meus meios para interferir na dinâmica da vida e (me) realizar. Mediação, sustentação, matéria, estrutura, estratégia, resultado, interface. O que eu disponho para fazer acontecer.

 

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#Sentido

 

Para ser grande, sê inteiro:

Nada teu exagera ou exclui

Sê todo em cada coisa

Pôe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim, em cada lago a lua inteira brilha,

Porque alta vive.

Álvaro de Campos

O que me inspira?

O que me move, entusiasma?

O que anima meu grupo?

Penso nas diversas camadas da palavra sentido.

Sentido como sensibilidade, percepção das manifestações da natureza, minhas próprias e de outras pessoas. Estímulos da visão, da audição, do tato, do paladar e do olfato. (Ou, como prefere Rudolf Steiner, estímulos dos doze sentidos da experiência do ser humano no mundo.) Estímulos que despertam emoções em mim.

Sentido como significado que eu atribuo a estas emoções e a tudo que observo ao redor. Faz sentir, faz sentido. Meu jeito afetivo de perceber e conceber a realidade.

Sentido como orientação. Por onde significados e sentimentos me levam. Minha deriva na vida, gerada a partir da minha sensibilidade e escolhas.

O que me encanta ou espanta? O que me arrebata?

Sinto as vibrações apaixonantes daquelas práticas que produzem sensação de êxtase e plenitude. Vivo experiências de fluxo. Observo o meu afeto, o que me afeta, mexe comigo, me excita, entusiasma, enternece.

O que cria calor no meu coração? O que me cria? O que me faz criar?

Fogo. Chama interior que me acende e transforma. Incuba minhas sementes. Queima meus excessos. Processa minhas mutações.

Energia criativa. Faíscas internas, desejos que me inquietam e inflamam, chamando, levando, impulsionando, gerando.

 

cloudFOGO

Ver Américo Córdula

 

Ver Karina Saccomanno Ferreira

 

Ver Pedro de Freitas

 

Ver Leandro Oliva

 

Ver Aline Fantinatti

 

Há o fogo-centelha que acende as ideias, um pressuposto diário de introspecção sobre o qual a arte se manifesta. Ela diz para onde quer ir e aponta o caminho, o sentido traz na chama da essência o seu nascedouro. A ideia pode vir de qualquer lugar, o fogo é a intuição determinando o que se quer ser. Quando a chama se acende, vai se criando o primeiro movimento, o primeiro pensamento e tudo vai criando forma num espaço vazio.

Fagulhas que habitam o meu interior | Victor Pessoa Bezerra

 

Somos um mar de fogueirinhas (…) Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam: mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano em O livro dos abraços

 

O fogo é o presente dado à humanidade que permite a ela transformar uma coisa em outra, possibilitando, assim, criatividade. Por um instante, imagine um processo ou um indivíduo ou uma situação social ou organização que estancou, perdeu sua energia criativa, sua motivação, seu senso de direção. Dizemos que tal processo esfriou, teve sua chama apagada.

Allan Kaplan em Artistas do invisível

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#Propósito

 

Imaginar é o princípio da criação.

Nós imaginamos o que desejamos,

queremos o que imaginamos e, finalmente,

criamos aquilo que queremos.

George Bernard Shaw

 

Ando sonhando com o que?

Em que mundo quero viver?

Quem desejo ser?

O que desejo realizar?

A palavra propósito me remete à razão de ser de minhas práticas, plasmada em insights de uma nova vida que eu desejo ver brotar.

Imagens que vou criando com entusiasmo e leveza. Visões que também me criam ao me convidarem a fazer determinadas escolhas.

Intenção de ser melhor. Aspiração. Busca. Vir a ser, ver-me a ser.

Um olhar para dentro e para fora. Um olhar que enxerga uma outra realidade possível e procura compreender como desencadear e sustentar as transformações que levam a ela.

Engendro meu propósito com liberdade criativa. Com abertura para novas relações, novas sinapses. Inspiro o ar fresco das utopias. O oxigênio que alimenta a chama dos meus #sentidos.

Desvendo. Exploro o que ainda não está claro. Esboço. Modelo. Experimento.

Inquieto, conto uma história para que você também possa ver. Escuto carinhosamente as coisas que você me diz, ávido por expansão e comunhão. Fluímos num conversar que entrelaça nossas ideias, desejos e emoções.

Imaginamos juntos. Deixamo-nos envolver pela atmosfera dos sonhos que nos conectam e nos fazem intérpretes e cocriadores do mundo.

A palavra ‘propósito’, em latim, carrega o significado de ‘aquilo que eu coloco adiante’. O que estou buscando. Uma vida com propósito é aquela em que eu entenda as razões pelas quais faço o que faço e pelas quais claramente deixo de fazer o que não faço. Como a sociedade hoje é mais focada no indivíduo, a ideia de propósito está marcada por um conceito que já existiu e voltou com força: o da realização. E a palavra realizar em suas leituras no latim e inglês indica, respectivamente, realizar no sentido de ‘tornar real’, mostrar a mim mesmo o que sou a partir daquilo que faço, e ‘to realise’, na acepção de ‘dar-me conta’. Isso significa a minha consciência.

Mário Sérgio Cortella, em Por que fazemos o que fazemos

 

cloudAR

 

Ver Américo Córdula

 

Ver Aline Fantinatti

 

Ver Karina Saccomanno Ferreira

 

Ver Pedro de Freitas

 

Ver Leandro Oliva

 

Para estimular a criação através do elemento ar, começo a andar cantando melodias, a princípio tudo muito abstrato mas no decorrer do processo vou cantando, colhendo e repetindo, repetindo até criar um formato, ficar orgânico, ficar fluido.

Ando cantando melodias | Victor Pessoa Bezerra

 

Sob a superfície, enterrada sob o peso do desgaste dos esforços passados, ou lentamente gestando dentro da escuridão protetora do calor do útero, há uma nova ideia, um novo conceito, uma nova forma, princípio ou possibilidade- uma nova vida. Ela deve emergir através da superfície em direção à luz…

Allan Kaplan em Artistas do invisível

 

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#Aprendizado

Se

Nem

For

Terra

Se

Trans

For

Mar

Paulo Leminski

O que foi transformando em mim com o tempo?

O que aprendi com as mudanças?

O que aprendemos?

O que vou conservando?

Aprecio o fluxo contínuo da água da vida levando meus tecidos mortos.

Aprecio desapegar ou simplesmente esquecer. Deixar passar o que está pronto demais, duro, dado, controlado. Quero desaprender, abandonar velhas fórmulas e estruturas, superar tudo o que me limita a um determinado jeito de ser e de praticar. Quero dissolver as certezas, deixar-me resvalar para fora das zonas de conforto e segurança. Quero deixar para lá, desencanar, perdoar(-me).

Água, substância comum, sangue, cultura, caldo nutritivo. Circula, traz outros humores, ensina novos cursos, me leva em tuas correntes.

Entre poças e redemoinhos, colisões aleatórias, com visões e pensamentos distintos dos meus, criam padrões inteiramente novos e me ensinam a me sentir confortável no desconforto das incertezas. Ao mesmo tempo, meu padrões essenciais permanecem, como a onda que se forma ao lado da rocha, enquanto a água segue seu curso na corredeira incessante de um rio.

Aprendo a me ver sendo eu. Aprendo a observar meu jeito de pensar e agir. Reconheço minha sabedoria ao mesmo tempo em que desconfio dela. Busco acessar minha ignorância e meus preconceitos. Busco conhecer e respeitar minha natureza.

Como em Heráclito“não se pode banhar duas vezes no mesmo rio” – cada novo ciclo nunca é igual ao anterior, pois tanto as pessoas como os contextos terão se transformado, ainda que sutilmente.

O que vou conservando em mim, na deriva desse incessante fluxo das águas, são repertórios vivos. Conhecimento incorporado, tácito, disponível, praticado com leveza e alegria. O que eu faço de mais genial com menor esforço cerebral. Intuição, improvisação, adaptação, contato-improvisação.

 

cloudAGUA

 

Ver Leandro Oliva

 

Ver Karina Saccomanno Ferreira

 

Ver Pedro de Freitas

 

Ver Américo Córdula

 

Ver Aline Fantinatti

Agora essa melodia vai encontrar seu fluxo, seus caminhos harmônicos a partir dos coloridos que quero construir dessas “transgressões”. Os acordes, em muitos casos, não têm “funções” harmônicas, eles vão formando prismas a partir da melodia. São sensações, intenções, movimentos. Há uma transparência no formato e na multiplicidade de formas que ela pode tomar. A harmonia se aprende da melodia, ou seja, ela acolhe a fluidez nas suas vozes complementares. Tanto do ponto de vista vertical (acordes) ou horizontal (melodias, contrapontos, cadências etc.).

Conteúdo de ganho e eliminação | Victor Pessoa Bezerra

 

Desde os primeiros dias da biologia, filósofos e cientistas têm notado que as formas vivas, de muitas maneiras aparentemente misteriosas, combinam a estabilidade da estrutura com a fluidez da mudança. Como redemoinhos de água, elas dependem de um fluxo constante de matéria através delas; como chamas, transformam os materiais de que se nutrem para manter sua atividade e para crescer; mas, diferentemente dos redemoinhos ou das chamas, as estruturas vivas também se desenvolvem, reproduzem e evoluem.

Fritjof Capra em A teia da vida

 

Quando pensamos em água, pensamos em movimento, fluxo, fluidez. A água é o elemento do processo. Ela vence a rigidez, não através do confronto brutal, mas encontrando o caminho de menor resistência.

Allan Kaplan em Artistas do invisível

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#Método

Sou a fonte original de toda a vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.

Sou a telha da coberta de teu lar.

A mina constante de teu poço.

Sou a espiga generosa de teu gado

e certeza tranquila ao teu esforço.

Cora Coralina

Com que práticas e meios realizo?

Como meu processo criativo se materializa?

Como estamos cocriando e construindo?

Vejo o elemento #método como estrutura intelectual que organiza meus pensamentos, guiando-me por um percurso de escolhas e práticas para chegar à realização do #propósito.

Não consigo dissociar essa estrutura intelectual das demais estruturas (corporais, sociais, econômicas, tecnológicas, ambientais…) envolvidas no percurso.

Estrutura é sustento. Elemento terra. Matéria dura, resistente. Algo que se pode manipular, compor, ordenar. Argila que nos permite construir.

Sinto-me potente. Colocar a mão na massa e fazer acontecer.

Preciso me manter vigilante (pois não quero vestir o colar de Harmonia). As estruturas são necessárias, mas não permanentes. Precisam fenecer para gerar vida nova. Estruturas perpétuas são fósseis. Desprovidas de energia criativa, não apenas se desconectam da renovação incessante da vida, como também ameaçam a sua continuidade.

“A natureza é vida e sucessão, desde um centro desconhecido até uma periferia incognoscível”.

As palavras de Goethe me envolvem como um manto. Desejo interferir nos processos da natureza para realizar meu #propósito e viver meu #sentido. Mas o equilíbrio da vida é delicado e complexo. Fruto de uma consciência que não consegue compreender o todo, minha tecnologia é vã.

Meu #método deve me permitir aprender para que eu o transforme.

Desejo lidar com ele como diálogo com a natureza, tentando compreender o que ela me diz e buscando interferir da forma mais sutil possível em sua dinâmica misteriosa.

Quero que meu #método desperte processos criativos em mim. Que me ajude a sustentar as mutações que acontecem em meu interior. E que seja ele próprio expressão de meu jeito de estar e me transformar no mundo.

Busco em meu #método uma qualidade de leitura. Que ele me permita ouvir a diversidade e que não imponha um modo único de enxergar e interpretar os fenômenos. Que abra espaço para eu ir além de meus limites de percepção e de seus próprios.

Busco equilíbrio: que meu #método seja tão rigoroso quanto flexível, tão incisivo quanto acolhedor, que organize, mas, também, abra espaço para as incertezas.

Busco vida: que ele me mantenha em comunhão com o ambiente sagrado: a Mãe Terra que nos alimenta e sustenta, que é generosa e frágil, meu meio, meu corpo.

 

cloudTERRA

 

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Quando a água busca a terra é pra cultivar a semente que já está lá, plantada no campo material. Essa semente vira método, partitura, a melodia pode ganhar letra (ou não). Os acordes são indicados por cifras, como um idioma universal. O som se materializa numa gravação (digital ou analógica). A “terra” dos vinis de outrora é a “nuvem”dos internautas de agora. A missão de captar o “invisível” assume outras formas, outros modelos, mas é como ouvi uma criança dizer: – Para onde vai a música quando ninguém está tocando?

No silêncio das pausas é onde moram os sons | Victor Pessoa Bezerra

 

A terra é dura, resistente. Ela é sólida e formatada; num sentido muito literal, ela é aterrada. As imagens de fundação e de alicerce emergem. Terra é algo com o qual se pode construir, dar forma a conceitos, possibilitar que ideias se manifestem; permitir que o novo nascente torne-se algo substancial, permitir que o processo criativo se materialize em algo que possa ser visto, tocado, produzido, compartilhado com outros que não fizeram parte do processo.

Allan Kaplan em Artistas do invisível

 

Na origem, a palavra “método” significava caminho. Aqui temos de aceitar caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar. O que dizia Machado: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”. O método só pode formar-se durante a investigação; só pode desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez dotado de método. Nietzche sabia-o: “Os métodos vêm no fim” (O Anticristo). O regresso ao começo não é um círculo vicioso se a viagem, como hoje a palavra trip indica, significa experiência, de onde se volta mudado. Então, talvez tenhamos podido aprender a aprender a aprender aprendendo. Então, o círculo terá podido transformar-se numa espiral onde o regresso ao começo é, precisamente, aquilo que afasta do começo. (…)

Edgar Morin em O método 1: a natureza da natureza

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Elemento #sentidoElemento #aprendizadoA beleza dos opostos 
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Guia do empreendedor sociocultural

81197a_11d79a862cf447d5b6d57bcdc0b7a0fcEm 2011, Minom Pinho e eu desenvolvemos uma plataforma digital para organizar conhecimento para a sustentabilidade em projetos socioculturais. Produzida pela Casa Redonda, a plataforma Sociocultural em Rede era constituída por um blog especializado, um circuito de workshops e o Guia do Empreendedor Sociocultural.

Utilizando uma linguagem simples e direta, o guia traz informações, reflexões, orientações e metodologia exclusiva concebidos para auxiliar realizadores socioculturais dos mais diversos segmentos – audiovisual, música, artes visuais, artes cênicas, humanidades, patrimônio e artes integradas – na concepção, no desenvolvimento, na execução, na viabilização e no aprimoramento de suas iniciativas e projetos a partir de premissas sustentáveis nos âmbitos social, ambiental, econômico e político.

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Sobre o almanaque
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Artistas do invisível: o processo social e o profissional de desenvolvimento

Conheci Allan Kaplan, fundador da organização sul-africana Proteus Iniciative, em 2015, em um encontro organizado pela Claudia Taddei num café em São Paulo. Após poucos minutos de conversa, já estava maravilhado com a forma como aquele homem simples, com barbas de gnomo, harmonizava uma presença terna e acolhedora com uma coerência radical.

Não é para menos, Allan é o criador da abordagem da prática social reflexiva, que explora o pensar de Goethe e sua relação com o campo social e propõe um modo de pensar e agir, em processos de desenvolvimento humano e social, baseado em uma integridade ecológica e um coerência radical entre o que de se diz e o que se pratica.

O livro Artistas do Invisível aborda a prática do desenvolvimento organizacional e das mudanças nas pessoas a partir da vasta experiência do autor. A leitura, muito acessível e agradável, oferece uma reflexão profunda, porém leve, de forma crítica, porém propositiva, sem se furtar de indicar exercícios para que os conteúdos abordados possam ser alçados a práticas pessoais e sociais.

“Quando trabalhamos com situações sociais, estamos trabalhando com seres, seres vivos, seres muito poderoso. Em geral, são seres afundados nos detritos do passado, tão debilitados pelos fracassos que colecionaram, fracassos esses causados pela rotina e pelo hábito entorpecente – às vezes tão grandes, desajeitados e obtusos como os gigantes da mitologia -, que perderam toda sua vivacidade, sua agilidade, toda a energia da juventude e a esperança. Quando isso acontece, não importa o seu tamanho, eles se escarrapacham sobre o nosso mundo, tecendo sobre ele o desânimo; ocupam nossas encostas e jogam sobre elas copiosas sombras como as Sliky hackea fazem sobre os fynbos. E há outros seres, nem um pouco burros – muito pelo contrario, ágeis, cheios de viço, vigor e boas intenções -, que podem, apesar disso, persistir na manipulação e no oportunismo, tudo supostamente em nome de um futuro melhor e de uma resposta mais flexível. Esses talvez invadam nossas encostas como bandoleiros, tendo em mente apenas o lucro e o ganho pessoal, com o coração aberto – e sacola para coletar moedas também.

É com esses seres que nos envolvemos quando praticamos a arte do desenvolvimento social. Se nos reconhecermos nos organismos com os quais trabalhamos e nos comprometemos genuinamente com sua recuperação, talvez possamos começar a criar algo novo. O objetivo de tal trabalho cocriativo é a totalidade.”

(…)

“Mistura de ordem e caos, os sistemas vivos florescem à beira do caos quando se permite que a nova ordem venha à tona. Os sistemas vivos se organizam e se recriam a partir do próprio impulso, desde que haja um fluxo contínuo de matéria passando através deles; desde que eles estejam caóticos o suficiente para assegurar que seus limites não estejam fechados a novas informações. “

(…)

“As dinâmicas e os misteriosos movimentos da mudança ‘não podem ser confinados a uma regra’. Mas nós adoramos nossas regras e medidas, nossos padrões de comparação, nossos critérios e padrões de qualidade, os quais, acreditamos, nos dizem o que está ocorrendo e nos libertam das rigorosas exigências da consciência. “

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Artistas do invisível no Google Books
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Amar e brincar

livro-amar-e-brincar-fundamentos-esquecidos-do-humano-maturana-verden-zoller-palas-athena-capaDescobri Maturana em 2006. Na época, prestava consultoria para a Avon na elaboração da sua política de patrocínios e de desenvolvimento cultural de revendedoras autônomas. O desafio era produzir uma abordagem centrada no feminino, mas não orientada a gênero. Meu ponto de partida foi estudar a dimensão filosófica do feminino e tive a feliz ideia de ir conversar com a professora Lya Diskin na Associação Palas Athena.

Durante a conversa ela me apresentou a noção de cultura matrística – uma situação cultural, oposta à matriarcal e patriarcal, na qual “na qual a mulher tem uma presença mística, que implica a coerência sistêmica acolhedora e liberadora do maternal fora do autoritário e do hierárquico” – e me sugeriu a leitura do livro “Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano”. Desde aquele momento minha forma de pensar e minhas práticas foram influenciadas pelas idéias do neurobiólogo chileno, um dos principais pensadores da complexidade.

Escrita por Humberto Maturana em parceria com a psicóloga alemã Gerda Verden-Zöller, a obra aborda três grandes temas: a formação da cultura patriarcal européia, a relação entre mãe e filho e um tipo de democracia vivida a partir da biologia do amar.

Considero uma leitura fundamental e recomendo como o início de jornada para quem deseja estudar a dinâmica dos sistemas vivos e a biologia cultural.

Além disso, o livro também é indicado para para mães e pais engajados na educação dos filhos.

“Colaboração não quer dizer obediência; ela ocorre na realização espontânea de comportamentos coerentes de dois ou mais seres vivos. Nessas circunstâncias, a colaboração é um fenômeno puramente biológico quando não implica um acordo prévio. Quando o faz, é um fenômeno humano. Ela surge de um desejo espontâneo, que leva a uma ação que resulta combinada a partir do prazer. Na colaboração não há divisão de trabalho. A emoção implícita na divisão do trabalho é a obediência. Desse modo, a maior parte da história do humano deve ter transcorrido na colaboração dos sexos, não na divisão do trabalho que hoje vivemos em nossa cultura patriarcal, como separação sexual dos afazeres. Em outras palavras, é a emoção, sob a qual fazemos o que fazemos como homens e mulheres, que torna ou não o afazer uma atividade associada ao gênero masculino ou feminino, segundo a separação valorativa própria de nossa cultura patriarcal, que nega a colaboração.”

(…)

“Assim, em nossa cultura patriarcal falamos de lutar contra a pobreza e o abuso, quando queremos corrigir o que chamamos de injustiças sociais; ou de combater a contaminação,quando falamos de limpar o meio ambiente; ou de enfrentar a agressão da natureza, quando nos encontramos diante de um fenômeno natural que constitui para nós um desastre; enfim, vivemos como se todos os nossos atos requeressem o uso da força, e como se cada ocasião para agir fosse um desafio.”

(…)

“Os conflitos da adolescência não são um aspecto próprio da psicologia do crescimento. Eles surgem na criança que enfrenta uma transição, na qual tem de adotar um modo de vida que nega tudo o que ela aprendeu a desejar na relação materno-infantil das relações matrísticas da infância, que corresponde aos fundamentos de sua biologia. Em outras palavras, a rebeldia da adolescência expressa o nojo, a frustração e o asco da criança que tem de aceitar e tornar seu um modo de vida que vê como mentiroso e hipócrita”

 

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De onde vêm as boas ideias

Capa_DeOndeVemAsBoasIdeias_Final2.inddO autor, pensador e articulista Steven Johnson propõe que as inovações não são acontecimentos eventuais criados por mentes prodigiosas, mas que dependem de ambientes humanos férteis para florescer.

(…) “em geral somos mais bem-sucedidos ao conectar ideias do que ao protegê-las. Como o próprio livre mercado, a defesa da restrição do fluxo de inovação foi durante muito tempo reforçada por apelos à ordem “natural” das coisas. Mas a verdade é que, ao examinarmos a inovação na natureza e na cultura, percebemos que ambientes que constroem muros em torno de boas ideias tendem a ser menos inovadores que ambiente mais abertos. Boas ideias podem não querer ser livres, mas querem se conectar e se fundir, se recombinar. Querem se reinventar transpondo fronteiras conceituais. Querem tanto se completar umas às outras quanto competir.”

Ao longo da leitura são desvendados sete padrões fundamentais dos processos de inovação humanos e naturais: o possível adjacente, redes líquidas, intuição lenta, serendipidade, erro, exaltação e plataformas.

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Lévy e a inteligência coletiva

108949O filósofo e sociólogo Pierre Lévy abre janelas para compreender como somos influenciados pela internet e tecnologias digitais.

Não somente usamos as tecnologias que produzimos, nosso desenvolvimento cognitivo e práticas sociais são afetados por elas. O contato com o pensamento de Lévy, me ajudou a observar e compreender melhor o viver acoplado aos recursos tecnológicos conectivos que no dia a dia acompanham e moldam meu trabalho e pensamento: hipertexto, interconexão digital, mecanismos de busca, editores e simuladores gráficos.

No livro A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço”, o autor convida a pensar o impacto das técnicas sobre a sociedade em uma perspectiva antropológica de longa duração, desde o Espaço da Terra, em que nossa identidade e nossos vínculos eram fundados na relação com o cosmos, passando pelos espaços do Território e da mercadoria, até chegar as possibilidades e complexidades de um Espaço do saber, onde somos intelectuais coletivos.

“A dificuldade do Espaço do saber consiste em organizar o organizador, em objetivar o subjetivante. O saber sobre o saber deriva de uma circularidade essencial, originária, inelutável.”

Outras dicas de leituras para o mesmo autor são “As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática”; “As árvores de conhecimentos”; e “Cibercultura”.

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Transgressões convergentes

8575910566Tive o privilégio de presenciar algumas das conversas instigantes e profundas dos autores, os amigos Maria Benites, Bernard Fictner e Wanderlei Geraldi, durante o período de gestação do livro.

Sim, é uma obra sobre educação, mas no sentido mais amplo e profundo da palavra. Sobre um tipo de aprendizagem que expande e liberta.

Segundo os autores, o livro foi elaborado a partir da preocupação constante de “enxergar o verso das questões para nele tecer, com categorias encontradas nos pensamentos de Bakhtin, Vigotski e Bateson, elementos de respostas que sustentem uma prática de relações educativas.”

“Esperamos, com a reunião destes textos, colaborar com a discussão sobre as questões de desenvolvimento, sobre a centralidade da linguagem nos processos de constituição das subjetividades, sobre a importância de ultrapassar os quadros propostos se fazendo acompanhar pelas manifestações artísticas, sobre a imperiosa relação com a alteridade e sobre as disponibilidades que as novas tecnologias estão aportando e que nos provocam pelas práticas que a partir delas estão em construção.

Este é um livro onde louvamos a Transgressão, onde a transgressão e os transgressores são lidos com verdadeira fruição porque somos convidados por eles a transgredir o cânone, a ignorar o mito, a perguntar o simples e, sobretudo, a nos comover com eles (co-mover, mover-nos com). Achamos que talvez seja essa a primeira e última causa do pensar: provocar transgressões, convergir nas margens, voltar e sair com algo parecido a essa liberdade que todos sabem que existe mas que ninguém consegue definir (de-finir, pôr um fim) e que é mais ou menos como a vida.”

Em um dos capitulos do livro os autores abordam a expressão indígena “O passado está na frente e o futuro está na gente”, que me inspira e acompanha desde o momento que a conheci em conversas com Maria Benites. Costumo citá-la em cursos e oficinas ao tratar da relação dinérgica entre os elementos #aprendizado e #sentido.

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André Martinez

Arte, cultura e criatividade entraram muito cedo em minha vida. Graças aos esforços de uma família determinada a me garantir a melhor educação, ainda que isso viesse a comprometer a maior fatia do orçamento familiar, pude estudar em um dos melhores colégios de Porto Alegre nos anos 80. Uma instituição jesuíta com educadores transgressores, infraestrutura de cair o queixo e programas de formação extracurricular para todos os gostos, da museologia ao cinema. Entre diversas atividades, ainda guri, ingressei na companhia de canto e dança do colégio, uma trupe muito ativa, com repertório permanente e uma agenda cheia de espetáculos em cidades brasileiras, principalmente no interior da região sul, e em algumas capitais do Mercosul.

Foi nesse contexto que vivi minha experiência precoce como empreendedor criativo. Quando surgiram os primeiros sistemas de videocassete doméstico, gravações informais passaram a fazer parte do cotidiano de nossas viagens e ensaios. A mão que segurava a câmera era de um colega apaixonado por televisão e entretenimento. O amigo-irmão Edson Erdmann. que tinha uma verdadeira usina de ideias na cabeça. Em pouco tempo as bricadeiras audiovisuais entre amigos foram ganhando corpo e, quando nos demos conta, estávamos operando uma pequena produtora. Produzíamos de tudo – de vídeos de casamento a desfiles de moda, de comerciais de TV à cobertura dos festivais de música do colégio. Edson, que hoje está à frente da Histórias Incriveis, já era um diretor genial, apesar da idade. Produções inventivas e caprichadas desafiavam os recursos técnicos precários e nossa pouca experiência. Aprendi muito com ele.

Aos 18 anos, eu já acumulava milhares de horas dedicadas a atividades criativas amadoras e profissionais: ensaios, apresentações, turnês, filmagens, reportagens, edição de videos, criação de roteiros, locuções, entrevistas, comercialização e toda a sorte de processos de produção. Na hora de escolher a faculdade, no entanto, estava mesmo interessado em algo que, naquele contexto histórico, me parecia novo e desafiador. Sem abdicar dos fazeres criativos, seduzido pela cibernética, que apontava para um mundo novo e um mercado cheio de oportunidades, acabei me formando analista de sistemas e administrador de empresas.

O resultado foi uma combinação insólita de experiências. Como programador e analista de sistemas, pude decodificar cada detalhe dos sistemas de informação organizacional e aprendi a sistematizar e a reduzir. Como dançarino e fazedor de vídeos, aprendi a articular minha expressão e meus movimentos com os de outras pessoas para criar algo coletivo, belo e expansivo. No transcorrer de duas décadas, o cartesiano e o poeta foram se mesclando em uma polaridade muito rica. Trabalhei como programador de teatro, cantei em um grupo vocal, dirigi e produzi espetáculos, fui parecerista de projetos, gestor de programas culturais público-privados, participei de governanças, desenvolvi políticas de investimento cultural para grandes corporações, me aventurei um pouco como realizador audiovisual independente. Observando por entre esses diversos papéis, enxergo uma pessoa com intuição forte e com habilidade para criar conexões de sentido, para desenhar metodologias e modelos e para facilitar o desenvolvimento de pessoas. Esse é o aprendizado que me permite prestar consultoria, por meio do Laboratório Sociocriativo, para organizações e mentoria para profissionais nos contextos da cultura, do empreendedorismo criativo e do desenvolvimento social. Meu jeito de trabalhar nesta convergência está organizado na tag inteligência sociocriativa.

A dança harmônica do universo me inspira. Sou fascinado pelas relações entre as partes, pela música das interdependências, que criam um todo elegante e cheio de significado. O que me move é ver a beleza nos movimentos e no ambiente. Uma beleza que convida a apreciar juntos, viver juntos. Adoro observar a vida criando. Dos formigueiros cultivados em potes de geleia na infância, ao pequeno jardim que me envolve no lugar onde trabalho atualmente, passando pelas coreografias nos coletivos em que dancei, o fascínio sempre se relaciona com desencadear um movimento e apreciar as coisas irem se inter-relacionando, enredando, gerando, ganhando uma ordem, criando algo que eu acho lindo.

Meu propósito é viver em um mundo sem violência, com muita poesia e alguma organização. Com o transcorrer da minha história, venho buscando aprender a interferir nos contextos e processos com mais consciência e delicadeza.

Sou um hacker e um artesão. Acolho o que o acaso me traz, aprendo com as pessoas com quem convivo, me aventuro a fazer o que meu coração manda, vou em busca do conhecimento necessário para colocar a mão na massa. Sempre conto com mãos, corações e mentes amigas que me completam.

Em minha jornada aprendi que cultura é a vida com sentido. Na última década venho pesquisando a complexidade das práticas e metodologias de organizações e de empreendedores socioculturais e criativos, e investigando como a gestão pode ser mais viva. Acredito que este é o lugar de uma convergência (entre afeto, energia e criatividade) criadora de novos padrões e de processos regenerativos.

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Foto Simone Sartori